O desconforto nosso de cada dia

Publicado: 4 de fevereiro de 2014 em Histórias reais
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EsconderLevanto a bandeira da sexualidade a todo o momento, defendendo gays, bis, trans ou seja lá o que for. Faço isso com uma vontade que você desacreditaria.

Todas as pessoas à minha volta me conhecem assim: a garota que rebate qualquer piadinha homofóbica prontamente. Uns acham graça, outros até exagero. “Nem uma piadinha, Amanda? Relaxa um pouco”.

Mas eu não relaxo. Não relaxo porque justamente por conta dessas piadinhas é que eles não sabem o fato mais importante sobre mim: sou bissexual e casada com uma mulher. Moramos juntas há mais de dois anos.

O meu desconforto com essa exposição é maior do que a liberdade de poder falar abertamente sobre o assunto. Mesmo no dia em que eu aguardava com meus amigos o beijo entre dois personagens gays de uma novela, acabei sendo, novamente, refém da minha hipocrisia.

Todos na casa sabiam que a mulher ao meu lado era minha esposa, com exceção de um casal que não víamos há bastante tempo.

Enquanto eles não chegavam estávamos abraçadas, como um casal deve ficar. A porta abriu com a chegada dos dois convidados e ela disse que mudei completamente. Inconscientemente afastei as mãos, mudei a voz, o jeito de tratá-la. Nem tinha me dado conta que eu estava mais uma vez seguindo um protocolo que já não nos faz mais sentido.

Com razão, ela fechou a cara na hora. E eu percebi o quanto aquela atitude era automática pra mim. E o quanto nos era custoso, desconfortável, massacrante. São mais de três anos de relacionamento – todos eles passados sem dar as mãos nas ruas. Agora começamos a trocar beijos em alguns bares “heterossexuais”, antes eram apenas os bares gays que os presenciavam. É uma guerra interna em que apenas eu estou perdendo.

Naquele ambiente fraternal não haveria nenhum risco de agressão física, nem moral. E mesmo assim meu piloto automático me fez seguir o caminho mais fácil: o de não me expor.

Achamos um ambiente favorável para uma conversa particular e minha esposa fez com que eu percebesse minha atitude. Eu estava mais uma vez me rendendo à minha própria insegurança.

Resolvi dar um basta nela (na insegurança, claro). Naquela noite, todos viram o quanto estávamos apaixonadas. A festa continuou normalmente, sem surpresas ou perguntas indiscretas. Não precisamos explicar nada a ninguém. E não nos desgrudamos mais.

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comentários
  1. Nick disse:

    E o que você está achando da história bissexual/lésbica da nova novela? Vai acompanhar e torcer para um beijo?

  2. Maria Rita disse:

    Amanda,

    Excelente texto! Acredito que você não é a única que passa por isso. Que trava em situações assim. Eu também tenho receio, pelas pessoas não estarem habituadas com nossas demonstrações de afeto, mas elas não estão acostumadas justamente por esse nosso receio, de nos expormos e por isso que um beijo, um simples beijo em uma novela da maior emissora de tv aberta do país causa essa repercussão toda. Uma vitória para nós, porque finalmente o assunto foi tratado com a leveza que se deveria. Só para compartilhar com você e com os seus leitores, nesse dia tinha ido visitar minha avó, a cena foi tão suave, na medida, que até ela, de quem eu esperava algum tipo de reação contrária, achou bonitinho. Eu, claro, comemorei, achei lindo! rsrs

    Li um comentário no FB, no perfil de uma amiga e achei muito pertinente a respeito de tudo que têm se comentado:

    “Os gays estão fazendo história, inclusive pq demonstram mais afeto e respeito por seus parceiros do que os casais heterossexuais . São chamados de promíscuos, mas pela vida tenho visto a promiscuidade vindo em escala desastrosa na ala hetero. Dizem que eles querem acabar com a instituição família, quando na verdade o que vejo são gays lutando exatamente para ter uma , enquanto os heterossexuais levantam a bandeira do “eu sou de todo mundo e todo mundo é meu também “. Hipocrisia pouca é bobagem…”

    Vale a pena essa reflexão.

    Abraço e sucesso!

    • blogsoubi disse:

      Maria Rita, adorei seu comentário, que rico! Bom saber que as pessoas estão tratando o assunto com mais naturalidade, né? Ainda mais os nossos pais e avós, que viveram em gerações onde esse tema era visto com maus olhos.

      Concordo também que muitos homossexuais querem seguir o caminho do amor e da família. E isso é lindo. Mas nem todos são assim e não acho ruim também. Casar ou namorar não são necessariamente a chave da felicidade. Tenho amigos heteros e homossexuais que são felizes solteiros. Cada um sendo feliz à sua maneira, né? 🙂 ! Beijos !!

      • Maria Rita disse:

        Claro, o comentário que citei foi um pouco generalista. O que ressalta é que, as questões em torno do relacionamento homossexual estão mais evidentes, casais se unindo, lutando por esse direito, pelo direito de ter filhos e tal. Super concordo quando você diz que existem os que são muito felizes solteiros. São escolhas e a felicidade é o que importa! 🙂

      • blogsoubi disse:

        Verdade, Maria Rita! E o comentário é excelente. Mesmo! É que sempre gosto de dar outros exemplos para mostrar que podemos ser felizes de várias formas! 🙂

  3. Gi... disse:

    Bom dia Amanda,bom dia meninas.
    Ai Amanda eu passo pela mesma situação constantemente,eu sei é ridiculo mas ainda assim é no automático.
    Eu e minha namorada estamos tão bem tão felizes sabe…
    Fomos ao show da ANA CAROLINA no sábado e o ambiente era propicio para carinhos,beijos demonstrações de amor…pois haviam muitos casais gays ali.
    E assim passamos uma noite incrivel…um show maravilhoso…
    Regada a muito carinho…beijos era como se ali nada nem ninguem pudesse nos julgar.
    Ontem ela veio me falar que gostaria muito que eu repetisse a dose…de carinho,de afeto.
    Que mesmo sem notar eu não abraço eu não a beijo em locais que tenha pessoas,somente quando vamos a um barzinho gls. Que as vezes ela se questiona se eu tenho vergonha de namorar uma mulher…e isso Amanda acabou comigo.Pois eu não tenho vergonha muito pelo contrario sinto orgulho quando me veem com ela.
    Porem no automático se estamos em casa com minha mãe de boa…quando chega alguem o tratamento é outro. Na rua é a mesma coisa.
    Gostaria muito de agir de forma diferente…não digo na empresa,pois se vc se recorda nós trabalhamos juntas… Mas fora sabe,na rua,nos lugares onde vamos.Pois eu sei o quanto isso é importante para minha mulher.
    Hoje somos muito mais felizes do que vários casais “certinhos” aos olhos da sociedade.
    Bjus

    • blogsoubi disse:

      Gi, como eu te entendo! Pois é, até ontem eu estava fazendo a mesma coisa. Agora vou tentar me policiar. É tirar aquele incômodo interno e nem olhar para o lado mesmo! Percebi que quanto mais natural a gente for, melhor é. 🙂

      • Gi... disse:

        Sim eu tbm prometi isso a ela…
        Alias eu devo isso a ela…é uma mulher incrivel.
        É a mulher que quero casar…e passar o resto da minha vida ao lado.

  4. Carol disse:

    Você a chama de esposa agora rs.. isso é tão lindo… ❤ tão termo ❤
    Essas nossas guerras internas sempre nos fazem reféns, nos impedem de dar vida a certos momentos de nossas vida ou às pessoas que mais valorizamos… nos impedem de viver nossos próprios anseios. Somos crucificadas por nós mesmas!!!
    Mas sabe, também não somos superwomens… temos nossas limitações sim, e não podemos nos martirizar em excesso, pois somos frágeis, estamos suscetíveis a momentos como esse que você passou… de negação, de fraqueza, de desconforto, de um Q de preconceito interno… Uma hora aprenderemos a agir com mais independência, sem que sejamos privadas por outrem ou por nossos próprios monstrinhos. O difícil é que temos a consciência de tudo, mas só a nossa razão não é capaz de nos impulsionar e reverter o quadro, mudar o que de fato somos ou aceitamos ser.
    Para quem antes chamava a esposa nos posts de namorada, hoje se nota como você, mesmo que um pouco imersa aos próprios conflitos, se liberta a cada novo dia. E outro exemplo de que podemos constatar é referente a tua última frase, Amanda: "Resolvi dar um basta nela (na insegurança, claro). Naquela noite, todos viram o quanto estávamos apaixonadas. A festa continuou normalmente, sem surpresas ou perguntas indiscretas. Não precisamos explicar nada a ninguém. E não nos desgrudamos mais."

    De pouco a pouco. Cada dia uma nova superação!

    • blogsoubi disse:

      Carol, como você é atenciosa. Notou muito bem a mudança do termo. E isso realmente significa muito pra mim. É um passo muito grande e estou feliz por tê-lo dado. É assim que a gente vai se libertando! Vocês é que também me ajudam muito a cada dia! 🙂

  5. Gi... disse:

    Em reposta a Rita…
    Não pude ver o ultimo capitulo da novela pois estava trabalhando,não vi o tal beijo.
    Mas chegando em casa minha mãe veio me relatar todo o final da novela…kk
    E disse que na hora do beijo meu filho de qse 4 anos perguntou a ela ”Vovó porque eles dois estão se beijando??? Meio sem entender…minha mãe olhou bem para ele e disse PORQUE ELES SÃO NAMORADOS…ELES SE AMAM.
    No dia seguinte ele veio me dizer mamae eu vi o Felix bjando na boca…sabe pq mãe???
    Eles são namorados e se amam.
    Isso me fez refletir…somos nós os mais velhos que criamos os ” HOMOFÓBICOS” eles quando pequenos são puros…nós que falamos que isso é errado…que isso é feio e blá blá blá…
    Meu bebe com seus 3 anos e pouco não se da conta ainda que a mãe dele não é apenas ”amiga” da tia…Mas quando ele tiver maturidade suficiente para entender ele tbm saberá respeitar.

    • blogsoubi disse:

      Essa história é incrível, Gi! Concordo, somos nós que criamos os homofóbicos. 🙂

      • Gi... disse:

        Sim,Rita eu tenho um filho e um sobrinho da mesma idade qse 4 aninhos.
        E vejo o quanto meu irmão é machista e preconceituoso meu sobrinho não pode brincar com as bonecas da prima pq isso é coisa de ”viado” ele vive rodeado de mulheres é natural ele querer fazer oq nós mulheres fazemos toda criança tem isso. Mas para meu irmão isso é inaceitavel,e ele coloca isso na cabecinha do meu sobrinho…que não pode,que é feio …errado e por ai vai.
        Eu sempre digo p meu irmão oq vai transformar esses meninos em gays é o fato deles se apaixonarem por alguem do mesmo sexo e resolverem passar o resto da vida ao lado.
        Se uma criança cresce com seus espelhos dizendo que isso é errado,que não pode ele vai crescer e sair por ai espancando gays…pois os espelhos ensinaram assim.
        No que depender de mim meu filho sempre vai ser ensinado a respeitar todos independente de qualquer situação.
        Se tds agissem dessa forma no futuro não teremos mais esse ”medo” de nos expor.

    • Maria Rita disse:

      Excelente exemplo o seu Gi. Concordo quando diz que somos nós quem criamos os HOMOFÓBICOS. Infelizmente é assim, as crianças seguem os exemplos que têm em casa, dos mais próximos.

  6. Joana disse:

    Oi Amanda 🙂 Como estas?
    Adorei o teu post, tive um pouco off porque tive de viagem no teu País mas ja estou de volta. Vou ver se te mando email hoje. Fiquei orgulhosa de ti, de teres conseguido te soltar nessa festa. Foi um grande passo ne?
    Eu vejo essa novela aqui em Portugal , onde está mais atrasada, e vi sempre que tive ai. Infelizmente vim embora na véspera do ultimo episódio mas ja vi a cena do beijo porque as minhas primas gravaram e me enviaram para eu ver.
    O meu avô tem 91 anos, sabe do relacionamento da minha prima que é casada com uma mulher e ele tem uma mente muito aberta 🙂 Gosta muito das duas e é totalmente a favor do casamento gay.
    É algo que me enche de orgulho. Ter uns avós tão open mind 😀

  7. Rui disse:

    Adoro o blog, adoro ler o depoimento das garotas, adoro quando leio algo como: de repente me apaixonei por ela, uma amor que nunca senti por homem nenhum.Acho que so mulheres são capazes de viver plenamente.Nunca quis ser mulher, mas o mundo feminino me encanta.

  8. Erica disse:

    Amandinha..tem um tempo já que não escrevo mas não pude deixar de notar a mudança do termo:namorada para esposa…haahha isso é maturidade amiga, parabéns. Eu diria minha mulher, porque sou possessiva, é minha, ninguém tasca hahahaha. Enfim. Ontem aconteceu um episódio ridículo aqui no trabalho. Conversávamos sobre o fato do jornalista ter sido morto na manifestação aqui no Rio, e todos discutíamos a questão jurídica (porque todos somos formados em direito) e do nada o meu chefe que é evangélico disse assim: – Aquela fulana, que ligou lá pra delegacia, é uma sem vergonha que deveria ser trancafiada numa cela com 20 marmanjos, ainda mais porque ela deve ser sapata…
    Amanda, na mesma hora eu me manifestei: – Como é que é? O que foi que você disse? O que tem a ver isso, a sexualidade da menina?
    Ele ficou tão sem graça que nem respondeu. Depois fiquei pensando nesse mundo escroto, machista e preconceituoso em que vivemos pois se nem uma heterossexual poderia ser jogada numa cela com 20 bandidos (não importa o crime ) muito menos uma homossexual ser jogada justamente por este motivo. O mais incrível disso é pensar que uma pessoa pode desejar isso pra uma outra, ainda mais confessando uma religião que prega o amor. Comigo é assim também amiga, piadinha homofóbica tem resposta na hora. Outro dia fiz um texto no face falando que o meu filho brincava de boneca, pra responder um comentariozinho escroto desses. Ele brinca de boneca, de bola, de luta. E tenho certeza absoluta que não é isso que vai definir o que quer que ele seja no futuro. Beijão

  9. Felipe disse:

    A sociedade que se dane!Eu sou livre,quando for engatar um relacionamento com um homem,vou beijar,dar as mãos para demonstrar que estou com ele e gosto dele,igualmente com as mulher.Nessa sociedade hipócrita tem que ter muita coragem!

  10. J disse:

    “Um mundo de igualdade não e feito de pessoas iguais, mas de pessoas com direitos iguais para serem diferentes.”
    Bjos garotas

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