O beijo gay em público

Publicado: 10 de junho de 2012 em Mundo LGBT
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Uma mulher homossexual mais velha me disse outro dia que acha ótimo a evolução da sociedade em relação à homossexualidade.

“Hoje as pessoas aceitam muito mais. Há muitos pais mais abertos a isso… o preconceito diminuiu. Na minha época era muito difícil. As pessoas tinham que sair de casa, eram expulsas, ninguém entendia muito bem isso…”.

É verdade. Os tempos são outros, mas ainda carregam uma série de preconceitos. Essa realidade ainda existe em muitos lares. Muitos pais ainda são muito tradicionais. A religião acaba influenciando também a negar o que “parece ser diferente”, quando a religião na verdade deveria aceitar as pessoas como elas são. O amor está acima de tudo, não é verdade?

E por todos esses receios do “mundo lá fora” é que essa mulher me disse: “Mesmo achando boa essa evolução, acho muito ruim essas adolescentes que se beijam no metrô e nas ruas. Para que precisam se expor?”

Foi quando o nosso debate começou. Eu disse que, na verdade, isso era ótimo. Essas meninas estão provando que o beijo  gay em público é algo absolutamente natural, que pode acontecer em qualquer idade. Quanto mais normal isso for, menos preconceito sofreremos. Não houve um tempo em que o próprio beijo heterossexual era proibido nas ruas e depois passou a ser algo absolutamente normal? Não houve um tempo em que as mulheres não trabalhavam fora de casa e que negros não ocupavam altos cargos?

Pois as conquistas começam a acontecer dessa forma. Elas não são fáceis. Muitas pessoas acabam sofrendo com isso. Os exemplos vemos pelas ruas todos os dias, com tragédias de homossexuais apanhando ou sendo assassinados apenas por andarem de mãos dadas ou beijarem alguém do mesmo sexo.

Essa ignorância precisa começar a acabar. Ninguém precisa ficar se escondendo atrás do armário. Estou pregando isso, mas ao mesmo tempo sou hipócrita. Como eu disse, não é algo fácil de se fazer. Estou tentando aos poucos. Ainda não saio nas ruas de mãos dadas com a minha namorada. Somos bem discretas, na verdade. Tanto que nunca ninguém percebe que somos um casal. Algumas cenas engraçadas já aconteceram por conta disso.

Uma vez fomos deixar o carro no valet com o manobrista e ele nos alertou: “Essa é uma balada gay, vocês sabiam disso? Mesmo assim vão entrar?”. Demos risada e minha namorada respondeu: “Somos um casal”. Ele ficou sem graça e, mudo, pegou a chave do carro para sair dali rapidamente. Não foi só uma vez que esse tipo de coisa aconteceu. Na outra vez, estávamos saindo cedo de uma balada, quando outro manobrista nos perguntou. “Já vão embora? Ah, imagino… aí tem muito gay também né, vocês não devem ter gostado”. A resposta foi a mesma. E mais um ficou sem graça.

As pessoas sempre acham que somos amigas. Outro dia, um homem veio abordar a minha namorada em um restaurante. Eu disse a ele que ela não podia conversar. Ele não entendeu e continuou tentando. Tive que ser mais firme. Não sei se ele se tocou que se tratava da minha namorada. E esse é o grande problema. Enquanto não “nos abrimos”  para o “público geral”, essas coisas continuarão acontecendo. E é bem ruim, na verdade.

No trabalho, no Dia dos Namorados, muita gente veio me falar se eu ia a uma balada para solteiros. Eu disse que não, que ficaria em casa. Isso porque ninguém sabe que eu namoro. Se eu falar isso por lá, as pessoas vão querer saber tudo: nome, endereço, cor dos olhos, etc. E eu sou péssima para mentir. Prefiro estar preparada para falar de vez que namoro uma mulher.

Escondendo o que somos verdadeiramente perdemos muito com isso. E eu sei, pessoal, o quanto é difícil. E muito dessa dificuldade está em conseguir encarar essa homofobia. A minha namorada, por exemplo, estava beijando a ex dela no carro quando começaram a tacar pedras no veículo. As pessoas começaram a xingar e a gritar com as duas. Elas retrucaram um pouco e depois decidiram ir embora do lugar. E isso aconteceu em uma cidade grande e “evoluída” como São Paulo.

E é esse preconceito que não nos deixa conseguir falar para todo mundo (só para pessoas confiáveis, no meu caso amigos e familiares). Mesmo assim estou bem comigo mesma. Muito feliz por ter tido coragem de realizar o meu desejo.

O próximo passo é contar no meu trabalho e aos poucos conseguir beijar em público em um lugar que não seja GLS, porque isso já fazemos.

Boa sorte para nós!

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comentários
  1. sarinha disse:

    O preconceito é uma coisa que ainda mexe com a gente.Como a sociedade ainda usam máscaras para dizer que não tem preconceito e quando dizemos para amigos mais próximos ou a familia a nossa opção sexual só faltam jogar pedras..Outros como colegas de trabalho fazem milhares de perguntas.Mas,creio que isso mudará um dia.Basta termos paciência.Assim como eu,estou tendo paciência de encontrar alguém que aceita-me,mas tá tão dificil…Boa postagem.Beijuss

  2. Joana disse:

    Blogsoubi aos poucos acredito que as coisas comecem a mudar sim. Olha a respeito disso que dizes de ninguem suspeitar de voces lembro-me de uma coisa que aconteceu a ultima vez que fui jantar com aquela minha amiga de quem gosto, quando a gente estava super bem.
    Estavamos no restaurante antes de pedirmos o que cada uma queria comer, enquanto o empregado nao ia à nossa mesa ( o restaurante tava cheio) e estavamos ja a ter alta conversa sobre viagens, eu a falar a que cidades queria leva-la, de um dia passarmos reveillon em Paris ou Nova York , e ela a dizer que sim, que temos de fazer isso e tava a dizer-me que adora o meu lado sonhador, que não quer que eu deixe nunca de ser assim nem desista. Enfim estavamos super proximas e senti um clima qq entre nós.
    Daí chega o empregado pra anotar os nossos pedidos e quando chegou à nossa mesa começou a meter-se connosco e a perguntar se podia interromper o clima. Disse isso a rir e a brincar.
    Nossa eu devo ter ficado tão vermelha, não imaginas. Ela por seu lado respondeu ” ah nao” mas riu e parecia muito mais a vontade que eu. E o empregado continuou dizendo ” Ah sao amigas mas tb poderiam ser um casal, não tem mal.”
    Foi curioso porque quem ficou mais nervosa fui eu, não costumo corar mas creio que devia estar corada. Ela olhava para mim e sorria e me observava.
    Isso será bom sinal blogsoubi?

  3. Joana disse:

    Blogsoubi depois diz-me o que axaste disto que te falei 🙂

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