Allen_Jones_Jump_65Essa é uma história verídica, enviada por uma leitora e adaptada para o BlogSouBi. O nome dos personagens são fictícios para preservar as identidades. Boa leitura.

Acabei de conhecer Andreia em um bate-papo chamado Mirc. Não tenho o costume de entrar nessas coisas, mas meus contatos do MSN estavam batidos, quis explorar outros ares. Em poucas horas percebi que tínhamos muito em comum.

Minha vida offline ficou mais curta depois que a conheci. Enquanto estava com meus amigos, só queria voltar para o bate-papo para falar com ela. Entrei com meu nome de costume, Júnior.

O telefone tocou. Era uma amiga me convidando para ir à piscina. Declinei. Preferi continuar a conversa com Andreia.  Engatamos um papo de relacionamento. Ela contou que o ex havia terminado o namoro no dia de seu vestibular. Menti que também havia acabado um relacionamento recentemente, o que não deixava de ser verdade, exceto pelo fato de que não foi duradouro, tampouco um namoro. Foi mais um rolo, mas quis dividir com ela. Talvez para ficarmos mais próximos, visto que estava me contando algo mais íntimo, ou para mostrar que ela não sofria sozinha por amor.

As semanas se passaram e estávamos cada vez mais íntimos. A conversa fluía sem pausas, uma história atrás da outra, regada a muitas risadas. Estranho dizer, mas ficava triste quando ela não estava online. E o coração pulava de alegria quando via a janelinha subindo informando que ela acabara de se conectar. O tempo passou e nós já tínhamos virado amigos de infância.

Começamos a contar um ao outro a programação do dia. Eram relatórios mesmo, com horário de chegada e de saída. O nosso papo no MSN era exclusivo. Colocávamos o status no ausente para não conversar com mais ninguém. As horas voavam. Na verdade, eu nem tinha mais tanta vontade de sair. Só torcia para chegar logo o fim de semana para poder sentar em frente ao computador. Não existia banda larga na cidade em que eu morava, ainda usávamos a arcaica internet discada. Por isso, eu só podia entrar depois da meia-noite ou final de semana. Andreia morava na capital, entrava a qualquer hora.

Então começamos a trocar e-mails diariamente. Mensagens grandes, com narração de tudo o que se passou durante o dia. Andreia falava com mais facilidade sobre a vida. Eu sabia até nomes de homens com quem ela havia se envolvido. Eu contava uma coisa ou outra, gostava mais de saber sobre ela. Talvez porque não tinha muito o que falar. Ou não queria.

Todo o dia 14 a gente comemorava aniversário de “conhecimento” com e-mails gigantescos. Eram dois, três, quatro e-mails por dia. E incluíamos cartões virtuais nessas nossas trocas. Até passamos a assistir TV juntos. Enquanto teclávamos, comentávamos o que estava passando na TV. Quando viajávamos ou íamos para algum canto que não tivesse acesso à internet, decorávamos tudo o que aconteceu para poder contar na primeira oportunidade. Em poucos meses, toda a história já havia tomado outro rumo. Um rumo que eu não queria, nem nunca pensei ser possível. Por diversos motivos. Como consegui me envolver tanto com uma pessoa que eu nem conhecia pessoalmente? Minha razão dizia que já era hora de parar. Depois de quase um ano de amizade, comecei a namorar. Mas não contei a Andreia. Fiquei ausente da vida dela por duas semanas. Era uma tentativa de afastamento.Então criei coragem pra falar. Por tudo o que já já acontecido, eu sabia que nossa história poderia terminar. Parte de mim queria isso. Vomitei várias palavras até conseguir escrever que estava namorando. Ela pareceu ter ficado triste, sugeriu que a gente se afastasse por um tempo. Desejou tudo de bom e disse que estava torcendo pela minha felicidade. Encerrou o assunto e saiu dando a desculpa que não estava bem.As conversas ficaram mais frias, secas, sem muitos detalhes da vida de cada um. Mas aos poucos, o papo foi voltando a fluir. Eu não conseguia resistir aos e-mails dela. Sempre que podia, respondia. Quatro anos se passaram e resolvi mandar um e-mail diferente. Dessa vez para me livrar da culpa de prendê-la nessa amizade. Agora não teria volta. Assim que eu falasse tudo, com certeza ela se afastaria de mim.Confessei que a pessoa das fotos não era eu. Por isso nunca quis encontrá-la. Pedi desculpas sinceras e disse que não diria meu nome verdadeiro, porque ela já não me veria como antes. Ela retrucou como imaginei, com raiva e magoada. O que eu tinha feito não tinha perdão.Tentei não entrar mais naquele e-mail, que era uma das ferramentas de minha farsa. Mas o aniversário dela chegou e resolvi parabenizá-la. Para minha surpresa, ela tinha me enviado uma mensagem três dias antes. Foi a deixa para voltarmos a nos falar, mas com intervalos mais longos, falávamos uma vez ao mês.

Os assuntos se tornaram banais, com frases curtas. Levamos essa louca amizade por mais alguns anos. Nove, para ser mais exato. Tínhamos muita coisa em comum (mesmo). Eu estava namorando, ela também. Ela estava com casamento marcado para o mesmo ano que o meu, mas disso ela não sabia. Na verdade, ela sabia muito pouco sobre minha vida. Sempre foi assim.Nessa altura eu já estava morando na capital. Em um dos raros papos que tivemos, Andreia citou alguns detalhes de seu carro. Um dia, voltando do trabalho e passando pela região em que ela trabalhava, notei um veículo com as mesmas características. Mas o que me fez ter certeza foi um bichinho de pelúcia pendurado no retrovisor. Deixei um bilhete e um bonequinho.

No dia seguinte, mandei um e-mail perguntando se ela tinha gostado. Andreia respondeu surpresa, dizendo que nunca imaginaria que aquilo tivesse sido deixado por mim. E então ela desembuchou. Disse que sempre falava demais da vida dela e eu de menos. Ela não sabia nada da minha vida, enquanto eu conhecia até o carro dela.

Finalmente tive coragem de revelar toda a verdade. Feita a confissão, tinha certeza que nunca teríamos contato outra vez. Falei. Falei que todo esse tempo ela estava conversando com uma mulher. Uma mulher que nunca havia se envolvido com outra mulher. E estava prestes a se casar com um homem e sonhava ter filhos e constituir uma família. Que fez a besteira de entrar em um bate-papo se passando por outra pessoa para tirar dúvidas e não mediu as consequências.

Acabei revelando toda a minha identidade. Ela me achou no Facebook e 15 dias depois nos encontramos no trânsito por acaso. Ela entrou no posto para abastecer. Entrei atrás. Fiz sem pensar, ela não me viu. Quando cheguei perto dela, o coração disparou. Não me dei conta de que ainda não estava preparada para ficar cara a cara com a mulher que enganei por tanto tempo. Nos abraçamos e falamos coisas como “finalmente”. A conversa durou pouco mais de dois minutos. Fiquei nervosa, sem saber o que falar, então achei melhor me despedir logo. Eu só queria que ela me olhasse nos olhos de uma vez por todas. Nunca mais nos vimos. Foram nove anos esperando por essa cena e finalmente aconteceu.

Hoje estou casada e muito feliz. Ela está prestes a se casar também. Continuamos a trocar mensagens, praticamente todos os dias. Falamos sobre casamento, viagens ou qualquer besteira. Nem parece que o Júnior um dia existiu. Geralmente puxo assunto. Até tento me segurar para não falar muito e criar uma situação chata. Sempre pensei nela e no Júnior juntos. É como se eu quisesse estar na pele dele, sabe? Mas não consigo me imaginar com ela como casal.

Acho estranho esse meu interesse por Andreia. Estranha também foi minha vontade de se passar por homem. Penso que foi a pessoa que me conquistou, independentemente de ser homem ou mulher. É a única explicação que me vem. O interessante é que quando estou com meu marido, nem lembro direito dela. Mas durante a semana, no trabalho, fico louca para conversarmos.

Sei que não sou 100% hetero. E devo ter uma resistência forte referente a isso. Para ser sincera, até prefiro ter. Não digo que nunca vou me envolver com uma mulher, mas espero que meu marido sempre me complete.

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A história da leitora é um interessante debate. Não seria tudo isso uma forte negação? Ou é apenas uma fantasia que ela gosta de viver para fugir um pouco da realidade? Vamos discutir. 
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“Se você apresenta o namorado ou namorada gay como amigo, se é contra qualquer exposição gay em mídia social, se prega que opção sexual é para ser guardada a sete chaves, esse texto é pra você: Não, você não aceita a homossexualidade ainda.”

O trecho, escrito por Nathalie Vassallo, foi um tapa na minha cara. É o mesmo tapa que levo diariamente dos meus amigos. Eles dizem que sou covarde por não assumir minha verdadeira identidade sexual.

Admiro minha colega blogueira por ter exposto o relacionamento lésbico nas mídias sociais. Como ela mesmo cita, há um processo para todo mundo – o meu ainda está em fase de desenvolvimento.

Não assumir talvez seja um sofrimento maior do que se eu viesse a sofrer algum preconceito. Não posso falar da minha esposa para qualquer pessoa. Se um amigo das antigas me convida para uma festa, simplesmente não vou. Ele irá me perguntar sobre relacionamento e mentir vai ser pior. A decisão mais covarde é ficar ausente.

No trabalho, a maioria acha que sou uma solteirona insatisfeita que nunca vai casar. Não que isso me incomode (tá, me incomoda), mas seria melhor poder falar da minha esposa. Sinto falta de citá-la com a mesma naturalidade com que eu falava sobre o meu ex-namorado.

Estamos juntas há quase quatro anos e ainda fico tensa quando vou contar sobre ela a alguém. Minha família e meus amigos sabem. Mas ainda tem uma fila de gente que eu já poderia ter contado e as palavras não saíram.

Preciso frisar, no entanto, o desrespeito que já sofri quando entrei na onda de contar pra todo mundo. Fui ao mecânico com minha esposa e, enquanto esperava o carro ficar pronto, ele perguntou se eu e minha amiga (minha esposa esperando do lado de fora) namorávamos. Afirmei que sim, sem dar detalhes. Ele continuou “Ah, legal, cada um com seu namorado”. Respondi que na verdade nós duas namorávamos. Ele ficou calado, tentando processar a informação. Incomodada com o silêncio, perguntei se havia algum problema nisso. “Não tenho. Na verdade, acho excitante. As duas são bonitas, né. Queria entender melhor como isso funciona, por que você não me liga?”

Fiquei totalmente sem reação. Ele já conhecia minha esposa há muito tempo, como poderia falar aquilo? Desconversei, fechei a cara e saí rapidamente dali. Pensei em uma série de coisas para falar sobre desrespeito, mas nada saiu.

Não fazer e não falar só me prejudicam. Sei que não me assumir afeta a luta pelos direitos LGBT. De que estou exatamente me escondendo? De mim mesma, essa é a verdade.

Há pessoas em situação pior que a minha. Recebo e-mails de mulheres casadas infelizes com seus relacionamentos heterossexuais. Elas são apaixonadas pela melhor amiga, pela colega de trabalho ou foram fisgadas por uma mulher que acabaram de conhecer. E elas não têm coragem de mudar de vida. Não conseguem assumir que o relacionamento com o marido acabou e que estariam dispostas a viver um novo amor.

Uma mulher já confidenciou que casou por uma imposição da família. Ela nunca amou o marido, mas tomou a decisão para viver essa tradição burguesa perpetuada como o único modelo correto a ser seguido. Alguns homens relataram situações similares.

Estar com alguém do mesmo sexo, para muitos, é sinal de fraqueza, fracasso, promiscuidade. Tenho um amigo que não assume a homossexualidade por conta da carreira. Ele acha que a confissão pode prejudicar a ascensão dele na empresa. É uma bobagem. Eu sei e ele também. Mas a nossa covardia é maior.

Por que estou fazendo isso comigo mesma? É a pergunta que me faço todos os dias. E talvez eu já tenha a resposta e não queira admitir. Eu só queria ser aceita por todos. Mas a verdade é que nunca todo mundo vai me aceitar, sendo bi ou não. Só preciso assimilar que a primeira pessoa a quem preciso agradar sou eu mesma.

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VideoAbracoGay

Colocaram frente a frente 15 pessoas homofóbicas para conversarem com gays e lésbicas. O desafio era um abraço ao final do bate-papo. O resultado é, no mínimo, emocionante (veja vídeo abaixo).

Em diálogos resumidos, é possível constatar algumas “relíquias” do preconceito. “Você é muito bonita para ser gay” ou “Eu sinto que homens gays fazem mais sexo que homens heterossexuais”.

Há ainda uma visão deturpada sobre a homo e a bissexualidade. Acredita-se que as mulheres precisam ter trejeitos masculinos e que os gays são promíscuos. Obviamente existem ambas as coisas, assim como na heterossexualidade há traição e promiscuidade.

Outro dia ouvi um homem dizer: “Não tenho amigos gays, porque eles fazem coisas muito diferentes das que eu faço. Sou um cara tranquilo, não gosto de pessoas expansivas ou que saem muito.”

Em outra roda de conversa, as pessoas na mesa disseram que saberiam identificar facilmente algum gay ou bissexual. Como ninguém sabia da minha sexualidade naquele ambiente, questionei: ” Não, vocês não saberiam identificar. Não há um estereótipo. Nem sempre é possível definir, apenas quando há trejeitos muito evidentes.” Um deles retrucou prontamente: “Amanda, claro que é possível. Se você fosse gay ou bissexual nós saberíamos.”

Obviamente dei risada e não respondi mais. Existe ainda uma grande confusão entre gênero e sexualidade. Explico melhor. O fato de eu gostar de mulher não significa que eu queira ser um homem. É apenas a minha sexualidade. Claro que há lésbicas ou até bissexuais com trejeitos masculinos. Da mesma forma em que há mulheres heterossexuais com os mesmos trejeitos. Provavelmente você já deve ter julgado que uma menina era lésbica apenas porque falava um pouco mais grosso e não se vestia de forma tão feminina. Há muitas delas por aí. E elas são casadas ou namoram com homens.

Já tive um amigo que eu podia jurar que era gay. Ele desmunhecava (de verdade) e falava suavemente, com a entonação feminina, de forma muito similar a um gay. Só que ele era casado com uma mulher e tinha filhos. Ele podia ser enrustido? Bem que podia. Mas quem poderá afirmar de fato isso?

Há exemplos ainda mais fortes. Basta citarmos o crossdresser, o homem que é heterossexual, mas gosta de se vestir de mulher. Pode parecer estranho para muita gente, mas é um prazer inexplicável para muitos homens heteros trajar um vestido.

Até transsexuais – que aí sim querem ter outro gênero e não se enxergam no corpo em que nasceram -, têm sexualidades diferentes. Há trans homens que têm atração por mulher. Outros têm por homens. Não podemos confundir transsexualidade (não querer estar no corpo de um homem ou de uma mulher) com identidade sexual (atração pelo mesmo sexo ou sexo oposto). Ou seja, uma pessoa pode ser um transsexual gay ou um transsexual heterossexual.

Pareceu tudo muito complexo? Então olhe agora para você. Pense nos seus desejos mais profundos e em tudo aquilo que talvez você nunca confidencie a ninguém. Tudo isso que está guardado e você não quer externar pode ser o mesmo desejo que muitas pessoas sentem e, por uma questão social, moral ou religiosa, também nunca trarão à tona. E então você vai me dizer: É bem diferente de tudo isso que você citou.

Pois é, e quem não é diferente?

Um grande abraço para todos vocês:

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Confesso que já tive muito preconceito com casais de idades muito distantes. Se eu via um homem de 50 anos com uma mulher de 25 já pensava automaticamente: “Ele deve ter dinheiro”.

Claro que essa situação pode acontecer. Uma vez ouvi um desses coroas anunciar sem rodeios: “Eu sei que ela está comigo por dinheiro. Ela me dá o que eu quero e eu a mesma coisa. É uma boa troca”.

Mas a troca nem sempre acontece dessa forma, muitas vezes há um verdadeiro sentimento envolvido. Alguns leitores confidenciam que estão apaixonados por pessoas muito mais velhas ou bem mais novas e têm dúvidas sobre o que fazer. Recentemente, uma leitora na faixa dos 20 anos relatou que uma mulher na casa dos 40 não saía da sua cabeça.

A mulher mais velha faz parte da imaginação pelo jeito de andar, de falar, de se portar. Seria apenas admiração? Para muitas pessoas sim. Por isso é preciso fazer uma auto-análise profunda. Nesse caso específico, há uma boa reflexão: quero ser como ela ou existe um desejo? 

Podemos ainda enveredar por teorias mais complexas. Freud, por exemplo, afirmava que muitas vezes podemos substituir o pai ou a mãe pela pessoa amada. Ele batizou isso de mecanismo de defesa de substituição. 

Há outro mecanismo de defesa similar, o de transferência. Uma pessoa que não teve pai ou não estabeleceu uma boa relação com ele, pode querer transferir todos os sentimentos paternais para o parceiro, como se ele fosse seu pai.

Não são análises simples e minha citação é rasa comparada ao conhecimento de um psicólogo. Por isso, sempre recomendo consultar um bom profissional para ajudá-los nesses raciocínios. 

Só não podemos descartar que o desejo também envolve admiração, que não pode ser confundida com nenhum mecanismo de defesa citado. É um misto de muitas coisas. A atração por uma pessoa reúne as mais diversas variáveis: não é só o jeito de falar e de andar, mas a personalidade, as ideias, o cheiro, o olhar. É tudo muito particular. Difícil explicar porque escolhemos determinada pessoa para viver um grande amor. É uma fórmula complexa e por isso muitas vezes é confundida, principalmente quando somos mais novos. 

Um bom exemplo disso é a paixão platônica por professores. Lembro de várias amigas apaixonadas pelo professor na minha adolescência. Não seria uma confusão entre (apenas) admiração e paixão? Nunca me apaixonei por um professor ou professora, então quero a opinião de vocês.  

A minha questão particular em relação a idade está no gênero. Sempre tive mais atração por homens da minha idade e por mulheres um pouco mais velhas. Apesar disso, já me envolvi com homens mais velhos e mulheres na mesma faixa etária que a minha. O que isso quer dizer? Que no final, a idade não será o fator determinante para firmar uma relação. Ou pelo menos não deveria ser. Há outras variáveis muito mais importantes.

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Nota 1. O BlogSoubi não compactua com a pedofilia, então descartem qualquer dissertação voltada a esse tema nesse post. 

Nota 2. Contem as suas experiências. Já se apaixonaram por alguém muito mais velho ou mais novo? Foi uma confusão ou era realmente uma paixão? Como vocês enfrentaram ou enfrentam o preconceito?

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Paula* é casada com um homem há mais de 10 anos. Há meses se deu conta de que não o ama mais e pensa em dar vazão a um desejo escondido há muito tempo: beijar uma mulher.

A vontade existia desde a adolescência, só faltava coragem. O fato de também se interessar por homens acabou ajudando no desejo dos pais. Casar e ter filhos. Fez tudo o que uma “mulher de família” poderia fazer. Não viveu uma mentira, ela realmente amou o marido. Mas o amor acabou e ela quer experimentar o desejo antigo de estar com alguém do mesmo sexo.

Diz que vai terminar o casamento, mas a coragem continua ausente. Não há motivos para julgá-la. Quem já casou sabe o quanto é difícil uma separação, ainda mais com filhos, ainda mais quando o próximo passo é se envolver com uma mulher e, quem sabe, se apaixonar?

O caso de Paula não é único. Diariamente, mulheres casadas, noivas ou com namorados me escrevem contando casos similares. Há quem esteja em um relacionamento apenas por aparência. Ou quem tenha descoberto o primeiro amor em uma mulher. Outras estão confusas porque não queriam sentir atração por homens e mulheres (ou apenas por mulheres). E muitas delas nunca falaram com ninguém sobre esse desejo. Com ninguém. Elas não conseguiram se abrir nem com a melhor amiga. Para entenderem o nível da situação, há mulheres que conseguiram escrever suas histórias só depois de um ano lendo o BlogSoubi. Elas não conseguiam nem escrever o que sentiam.

É difícil escrever, é difícil falar. Namorei homens e sempre tive desejo por mulheres, mas antes dos 25 anos nunca havia externado isso. Achei que guardaria esse segredo pelo resto da minha vida. Mas o meu namoro de longa data terminou e tive coragem para tentar. Fui tão além que hoje, aos 28 anos, sou casada com uma mulher.

Não foi fácil assumir esse sentimento dentro de mim. Foi um processo. É um processo. Ainda não falo sobre o assunto com todo mundo, apenas com quem confio. Estou vencendo isso aos poucos. O meu lema sempre foi não querer me expor. Muitas lésbicas e bissexuais têm o mesmo lema. Dia desses, uma delas me disse: “Se fossemos heterossexuais, sairíamos por aí dizendo isso?”. Não, não sairíamos. Mas também não teríamos o menor problema em dizer que somos casadas com um homem. Algum heterossexual esconde que é casado para não expor a intimidade?

Sabemos que não se trata apenas disso. Há o preconceito que poderá existir no âmbito corporativo. Há o medo de andar nas ruas e ser morto apenas por estar de mãos dadas com alguém do mesmo sexo. Há países em que você poderia ser presa. Há, muitas vezes, a pressão da família para não seguir adiante. Amigos podem deixar de ser “amigos”. E muita mulher pode pensar que você está dando em cima dela apenas por dizer oi – sim, tem gente que pensa desse jeito.

Respeite o seu processo de aceitação, mas não deixe que ele a limite a viver o que realmente gostaria. O primeiro passo para se livrar do próprio preconceito é conseguir falar com alguém sobre o assunto. É mais libertador do que você possa imaginar.

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Blog

 

No último 6 de março, o BlogSoubi marcou a sua estreia no Brasil Post, uma publicação criada em parceria com a Editora Abril e o The Huffington Post, portal de notícias americano.

post criado pelo BlogSoubi entrou no topo, com grande destaque, na sua primeira participação (veja imagem).

Nada disso teria acontecido sem vocês e a indicação de uma profissional que respeito muito. Obrigada por me apoiarem e colaborarem com afinco nessa jornada, que está apenas começando.

Agradeço imensamente todas as sugestões e histórias que chegam e continuam chegando por comentários e e-mails. São os relatos de vocês que deixam esse espaço mais rico e mais instigante para debates e descobertas.

Vamos continuar disseminando ideias contra o preconceito, o ódio e a ignorância.

Um grande abraço!

Amanda

Alex e sua mae Digna Medeiros

Alex e sua mãe, Digna Medeiros | Reprodução/Reprodução

Alex gostava de dança do ventre e de lavar louça. Irritado com os trejeitos do garoto de oito anos, o pai o espancava diariamente, como uma forma de endireitá-lo. Ele tinha de ser um homem de verdade.

O dia 17 de fevereiro de 2014 marcou a última sessão de brutalidade. Depois de duas horas de tortura, o garoto foi levado ao posto de saúde e não havia mais nada a fazer. Estava morto.

Morto pela ignorância. Por um machismo construído ao longo dos anos. Por torcidas organizadas que lincham um jogador de futebol por sua sexualidade. Por pais que ensinam filhos a não chorar e muito menos a serem sensíveis. Por visões distorcidas sobre o mundo e sobre as pessoas.

Toda essa gente vai se chocar com a história do Alex. Vai dizer que foi exagero. Que não aceita, mas não concorda com a morte do garoto. E depois de alguns meses, ou até um pouco menos, essas mesmas pessoas vão afirmar categoricamente que nunca admitiriam ter um filho gay.

O corretivo pode não ser a morte. Haverá no lugar disso agressão moral, castigos, proibições. Muito filho exemplar vai virar marginal depois que os pais descobrirem a sexualidade. Não poderão sair de casa. Serão forçados aos tratamentos mais absurdos para serem treinados a ser homens (ou mulheres) heterossexuais.

Não está em discussão se Alex era mesmo gay ou não. Nem ele deveria saber disso. O fato de ele gostar de dança do ventre e de lavar louça não diz absolutamente nada. É mais uma visão sexista do que qualquer outra coisa. Os indícios de uma homossexualidade está na cabeça dos adultos. Uma cabeça alimentada por um senso comum enviesado e regado de um ódio descomunal aos gays.

Não há maior ou menor grau de preconceito. Há o preconceito e ponto. E é esse preconceito que mata, diretamente ou indiretamente. Antes que venha uma avalanche de sabichões do senso comum, já me adianto. Ninguém é obrigado a aceitar nada. Mas é importante questionar. Alguém acha aceitável uma criança morrer assim? Precisamos tentar entender o que levou o pai do garoto a fazer isso. E entender é aprender a respeitar. Vamos discutir a sexualidade em casa abertamente, ler sobre o assunto, ver filmes sobre a temática ou até entrar em uma associação de pais com filhos gays para tentar superar o preconceito.

É o exercício de descobrir aos poucos que esse é um sentimento genuíno, não uma opção. Aboliremos essa ideia de opção sexual. Chega dessa história. Se o seu filho é gay, não há como fugir disso. A não ser que você queira agir como o pai do Alex.

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